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PERDIDOS NO ESPAÇO (PARTE 2)

Como ia dizendo, com 4 anos e meio, em Santa Maria, minha cidade natal no Rio Grande do Sul, assisti ao vivo pela televisão o homem pisando na lua pela primeira vez. Um espetáculo em preto e branco e baixa definição. Até hoje tenho aquela sensação infantil de possuir uma figurinha rara em álbum de estimação. Quantos piás terráqueos da minha idade será que viram o mesmo que eu vi? Com olhos de criança? Alguns milhões, talvez. Afinal, naquela época éramos 3,5 bilhões de humanos.

A brincadeira de astronauta se tornou uma das minhas preferidas. Um vizinho improvisou uma cápsula lunar fincando palitos numa laranja à guisa de patas da espaçonave. Meu irmão era o Aldrin - o cara que pisou na lua; o amigo preferia o Armstrong - que também desceu. E eu era o Collins, o astronauta que ficou no módulo da Apolo 11 observando tudo. Foi o que sobrou para mim, o menor da turma.

Um ano e meio depois, com seis anos, eu já estava numa carteira escolar, sem passar por jardim da infância, pré-primário, direto, sem escalas. Na minha contagem de tempo, anos-luz dos dias em que brincava de astronauta. E fiquei ali, observando que nem o Collins, aquele monte de novidades com o cheirinho inesquecível do meu primeiro material escolar novinho em folha.

O universo do conhecimento que começava a passar diante dos meus olhos como uma chuva de meteoros não me afastou - nunca - da dimensão infinita da imaginação. Então, era sair correndo da escola para grudar naquela série em preto e branco em que o robô não cansava de repetir para o menino Will: Perigo! Perigo!

PERDIDOS NO ESPAÇO - Chico Ferreira é jornalista

Se a memória é mesmo um quebra cabeça inacabado, confesso a falta de peças que passei a inventar para ver se ainda consigo o quadro inteiro daquele dia de julho, na minha Santa Maria de 1969. Um quadro em preto e branco.

Tenho a vaga lembrança de que fui acordado por meu irmão mais velho para ir até a sala onde ficava o único televisor da família. Será que eu vestia um pijama de pelúcia? Parece que sim. E se assim foi, acho que era de manhã e fazia frio. Parece também que me aboletei no sofá para ver na tela sem cor da nossa televisão o evento histórico para adultos e muito curioso para crianças.

Brinquei muito na rua. Guardei vaga-lume numas caixinhas de ferro chumbadas na calçada que a gente nunca soube para que serviam. Mas era bom ver a luz aprisionada escapando só por um buraquinho que existia na tampa destas caixinhas. Enxurrada também divertia a gurizada. A correnteza forte do meio fio servia para simular rios, mares e outros vórtices que levavam barquinhos de papel, palitos de picolé, um ou outro brinquedinho de plástico. Nas tempestades pesadas, as mães chamavam prá dentro com medo de perder algum rebento para a fúria em forma de água. Ou de raio.

Não sei se antes ou depois do evento que acredito ter assistido pela TV inventamos - pelo menos na nossa rua - outra brincadeira.  A de astronauta. E eu gostava de ser o Collins. Com pouco mais de 4 anos, sabia um nome próprio  em inglês. Era o mínimo que se precisava para viajar no cosmos, ainda a anos-luz de uma carteira escolar. (CONTINUA NA SEMANA QUE VEM)

Sem paixão, nem Chicabon!

Por Regis Martins - Jornalista e Músico

No final dos anos 1980, prestes a fazer o vestibular, eu só tinha uma única certeza: a vida é curta demais para se dedicar a Matemática. Minha incompetência para com os números e cálculos me levou a manter uma distância segura do campo de Exatas.

Para tristeza de meu pai, eu era um sujeito ligado as Humanas, um mundo vasto e impreciso que englobava disciplinas que não existiam na tabela periódica.

No final das contas, acabei me tornando jornalista, algo que vou carregar pelo resto da existência. Porém, o fato é que, por pior que pareça, saber o que não se quer já é algo importante num período de tantas escolhas e poucas perspectivas.

Há gente incompetente demais por ai e o número de pessoas que encontro em empregos que odeiam, é surpreendente. Pode parecer ingênuo, mas a verdade é que os grandes homens que colocaram as coisas realmente para andar, amavam o que faziam.

Por isso, na hora do vestibular, sigam o conselho do bom e velho Nelson Rodrigues, escritor e dramaturgo: “Sem paixão, não se chupa nem um picolé Chicabon”.

Se nada der certo, lembre-se que você é jovem o suficiente para tentar tudo de novo. Quebrar a cara é sempre um método eficiente para se chegar à maturidade.