PERDIDOS NO ESPAÇO - Chico Ferreira é jornalista

Data: 18 de Abril de 2018

Se a memória é mesmo um quebra cabeça inacabado, confesso a falta de peças que passei a inventar para ver se ainda consigo o quadro inteiro daquele dia de julho, na minha Santa Maria de 1969. Um quadro em preto e branco.

Tenho a vaga lembrança de que fui acordado por meu irmão mais velho para ir até a sala onde ficava o único televisor da família. Será que eu vestia um pijama de pelúcia? Parece que sim. E se assim foi, acho que era de manhã e fazia frio. Parece também que me aboletei no sofá para ver na tela sem cor da nossa televisão o evento histórico para adultos e muito curioso para crianças.

Brinquei muito na rua. Guardei vaga-lume numas caixinhas de ferro chumbadas na calçada que a gente nunca soube para que serviam. Mas era bom ver a luz aprisionada escapando só por um buraquinho que existia na tampa destas caixinhas. Enxurrada também divertia a gurizada. A correnteza forte do meio fio servia para simular rios, mares e outros vórtices que levavam barquinhos de papel, palitos de picolé, um ou outro brinquedinho de plástico. Nas tempestades pesadas, as mães chamavam prá dentro com medo de perder algum rebento para a fúria em forma de água. Ou de raio.

Não sei se antes ou depois do evento que acredito ter assistido pela TV inventamos - pelo menos na nossa rua - outra brincadeira.  A de astronauta. E eu gostava de ser o Collins. Com pouco mais de 4 anos, sabia um nome próprio  em inglês. Era o mínimo que se precisava para viajar no cosmos, ainda a anos-luz de uma carteira escolar. (CONTINUA NA SEMANA QUE VEM)